terça-feira, 18 de janeiro de 2022

O Dia Em Que Não Serás Lembrada.


 

Olá,

        Sou Raquel, tenho atualmente 3 décadas e essa é a minha segunda experiencia com o Alzheimer. A primeira delas foi com o meu pai, cuidei dele por oito anos até 2021. Não foi fácil, tive de aprender a aprender muitas coisas: a ter jogo de cintura com doente, a ter paciência, a voltar a ser criança para entender o que ele não conseguia expressar em palavras porque ele mal falava. 

        O Alzheimer tem 3 fases: leve, moderada e severa, mas nem sempre o doente segue a risca todos os sintomas. Como sempre gostei de estudar e me dediquei, isso me ajudou muito, essa curiosidade pela psicologia, pela Ciência e pela mente humana me fizeram ser uma boa "cuidadora". O resto me fez ser uma boa pessoa, ele me fez ser uma boa filha, mais amorosa, mais humana e a doença me obrigou a ser responsável, forte e mais paciente.

        O que me destruiu foi que eu o perdia todos os dias e não aceitava. Eu cheguei a um ponto de me habituar aquilo, de me apegar à rotina. De viver viver em função dele, tanto eu quanto minha mãe. Então, toda noite eu o colocava pra dormir, era engraçado até que foi se tornando trabalhoso também, logo nostálgico porque eu tinha que todo dia inventar uma moda: cantar, dançar com ele... 

          Até que ele adoeceu gravemente em 2021 e foram os piores 3 meses da minha vida. Dia após dia eu lutava contra uma infecção que não se curava, contra um mal que no fundo nem o geriatra dele entendia. A cada agulhada, a cada medicamento eu sentia também a dor dele. Eu rezava, tinha hora que eu maldizia tudo e todos, eu não me conformava com quem vinha com pensamentos negativos, mas bem no fundo eu sabia a que caminho aquilo estava levando: ele estava acamado, não falava, só sorria, sua comida era pastosa, dependia da gente pra tudo, so estava por estar no mundo. Ele estava indo embora. 

        Um belo dia ele acordou e estava sorrindo, falando: milagre. Nos animamos!

Era o inicio de uma nova fase. Vida nova. Novo ciclo. Por fim, ele havia voltado com tudo. ENGANO. No outro dia, acordei ele como sempre fazia de manhã para dar seu café, ele costumava ser teimoso, demorar pra despertar, então naquele dia o fiz, quando fui sentá-lo para o banho  voltou a suar frio baixou a pressão, fiz os primeiros socorros como de costume, mas já não estava adiantando...

     Meu irmão chegou e viu tudo, me ajudou junto com minha mãe, ambos perceberam que ELE ESTAVA INDO EMBORA, sorrindo e olhando para cada um de nós ele nos deixou não antes de sorrir. Essa foi a minha maior dor. A minha maior perda. A que me quebrantou. A minha lição de amor. O luto que me tem até hoje. Mesmo depois do fim, minha estrelinha brilha todo dia pra mim. João Praxedes. 


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